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Boa tarde, quarta 05 de Novembro de 2003

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  CCBB-BRASÍLIA TRAZ PARA A CIDADE VIOLA TURBINADA
Um novo projeto do Centro Cultural Banco do Brasil (Brasília) traz para a cidade a novíssima geração de artistas que fazem a fusão da música de raiz com elementos contemporâneos. “Se quiser falar do mundo, fale de tua aldeia”. O conselho veio em finais do século XIX da parte de um romancista que é considerado por muitos como o maior prosador da literatura, o russo Leon Tolstoi. Pois é justamente esta idéia de voltar às raízes para conectar-se com o mundo contemporâneo que norteia o trabalho de um grupo de artistas que tem sido responsável por renovar a música caipira. São músicos que decidiram amplificar, fundir as sonoridades de raiz com ritmos e influências contemporâneas. O resultado é arrebatador.

Agora, Brasília poderá conhecer alguns dos mais conhecidos e importantes integrantes deste movimento, através do projeto Viola Turbinada, que durante o mês de novembro, trará para o palco do Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, os primeiros nomes desta nova música.

Viola Turbinada acontecerá dentro do projeto Terças Musicais. A partir do dia 4 e até o dia 25 de novembro, estarão se revezando no palco do Teatro do CCBB as bandas Matuto Moderno, Tuia e o Dotô Jeka, Fulanos de Tal e Jerry Espíndola & Croa, que contarão com convidados especiais a cada show. As apresentações acontecem sempre a partir das nove horas da noite e os ingressos estão a preços populares de R$ 15 e R$ 7,50. O evento ocorre simultaneamente em Brasília e no Rio de Janeiro.

O movimento de renovação da música caipira é natural do sudeste e do centro-oeste do Brasil. Jovens músicos de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás e até do norte do Paraná decidiram voltar à essência da alma do caipira para extrair o material de trabalho de suas músicas.

A esta música de raiz, aos ritmos regionais como moda de viola, catira e jongo, são incorporados elementos do rock, batidas eletrônicas, instrumentos amplificados e até efeitos de computador. O que se consegue é surpreendente – eles já criaram versões para a viola até de músicas de Jimi Hendrix. Os músicos costumam brincar, dizendo que cresceram ouvindo rock, blues, reggae e MPB, mas hoje curtem mesmo é Tião Carreiro e Pardinho e Tonico e Tinoco.

O movimento integra uma tendência que se observa na música brasileira de redescobrir o Brasil tradicional. Segundo o curador de Viola Turbinada, o cineasta Reinaldo Volpato (que se diz um caipira e corda de viola), “essa nova geraão de músicos honra seus antepassados, se orgulha de seu povo e de suas tradiões”. Para Volpato, uma das metas do movimento é, inclusive, acabar com a imagem que se construiu do homem do campo brasileiro.

“As regiões sudeste e centro-oeste estão fazendo questão de mostrar que seu personagem principal nunca foi o canastrão desengonçado, enfermiço, preguiçoso e ignorante como as elites um dia puderam fazer crer”, diz.

Matuto Moderno, Tuia e o Dotô Jeka, Fulanos de Tal e Jerry Espíndola & Croa são considerados os primeiros representantes desta nova corrente da música brasileira, que tem no festival Caipira Groove, de Campinas, interior de São Paulo, a principal vitrine.

Um pouco de
muita história

Não é de hoje que a música de viola comprova popularidade. Tudo começou em 1929, quando o brasileiro Cornélio Pires, sem conseguir espaço na gravadora Columbia, pegou um empréstimo para lançar cinco títulos de autênticos violeiros e cantadores do interior paulista. Contrariando os prognósticos das gravadoras comerciais, os discos fizeram um imenso sucesso, gerando a Série Vermelha, que teve 51 discos lançados – alguns bolachões (eram discos em 78 rpm) chegaram a vender 20 mil cópias!

Com tanta aceitação, a música caipira encontrou espaço generoso nas gravadoras durante as décadas de 30, 40 e 50, época em que imperaram duplas como Raul Torres e Florêncio, Tonico e Tinoco, Vieira e Vieirinha, Tião Carreiro e Pardinho, entre vários outros. Mas a partir da década de 60, a música caipira passa a acompanhar os passos da Jovem Guarda, incorporando uma levada pop. Surgem duplas como Milionário e Zé Rico, Léo Canhoto e Robertinho, Christian e Ralf, que utilizam guitarras e contrabaixos elétricos, quase anunciando o que viria pela frente.

Os anos 80 marcam o estouro da música sertaneja, com duplas como Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, Zezé di Camargo e Luciano, que chegam a milhões de pessoas no Brasil e no exterior. Tudo é grandioso quando se refere a este fenômeno comercial e cultural, “embora pouco tenha sobrado da alma e da viola caboclas”, ressalta o curador Reinaldo Volpato.

Mas na década de 90, jovens violeiros brasileiros, como Paulo Freire, Ivan Vilela, Roberto Correa e mesmo veteranos como Pena Branca e Xavantinho voltam ao sertão para recuperar as raízes e registrar festas e toadas populares. “Essa geração leva a nossa viola caipira às salas de concerto mais famosas do Brasil e do mundo, invadindo o erudito, participando de sessões de jazz and blues, reinventando temas caipiras e da música popular tradicional”, conta Volpato. O resultado não poderia ser mais contundente. Hoje, é o rock que recorre à viola.

As bandas

Matuto Moderno – A banda é apontada como uma das mais importantes do movimento, reconhecida e respeitada pelos maiores violeiros do Brasil, como Pena Branca, Pereira da Viola, Ivan Villela, Braz da Viola, Roberto Corrêa entre outros. A Matuto Moderno bebe da fonte das músicas regionais para criar suas composiões, somando instrumentos e ritmos tradicionais como viola caipira, batidas de catira e percussão com guitarras, bateria e outros efeitos eletrônicos. Os músicos da banda dedicam boa parte de seu tempo a viajar pelo interior de São Paulo e de Minas Gerais, pesquisando a cultura popular, registrando versos e cantos, impregnando-se de sertão. Muitas vezes, conseguem recolher verdadeiras pérolas que, depois, ganham uma roupagem contemporânea. Já tem dois CDs lançados – Bojo Elétrico e o recente Festeiro, produão independente de 2002, que conta com as participações de Pena Branca, Pereira da Viola, Grupo de Catira Brasil de Rio Claro e vários outros nomes do universo da música caipira.

Jerry Espíndola & Croa – O sobrenome é bastante conhecido do cenário musical brasileiro. A família Espíndola, da fronteira do Mato Grosso do Sul com Paraguai e Bolívia, já cedeu ao Brasil os talentos das irmãs Tetê e Alzira Espíndola. Agora, o caçula também promete sacudir a música popular brasileira, com um som que funde ritmos regionais mato-grossenses com a energia do rock. Jerry cresceu ouvindo a polca, que levanta poeira nos bailões da fronteira. Decidiu misturar este gênero com o rock, incluindo o rasgo distorcido das guitarras e o repique dos tambores. A ele se uniram quatro músicos integrantes da banda Croa (que quer dizer mata fechada do cerrado). Juntos, Jerry Espíndola & Croa lançaram o CD Polca-rock, que foi celebrado pela crítica como sendo uma espécie de rock progressivo com jazz, reggae, enfim, uma riqueza melódica que surpreende o público. O disco inclui 13 faixas, sendo nove de autoria própria e quatro releituras, nas quais impera a polca-rock. Mas também há espaço para a fusão interessantíssima da guarânia paraguaia e com o reggae jamaicano.

Fulanos de Tal – Criada em Rio Claro, interior de São Paulo, a banda faz um som que só pode ser definido como “forte”. Forte na batida, na percussão. Já se disse que os Fulanos de Tal não tocam violam: batem uma guitarra pesadona. A banda trabalha sobre canções e ritmos originários da cultura caipira/negra da região de Rio Claro e do Cururu, o repente paulista. Os músicos injetam uma levada pop nos ritmos tradicionais, ao mesmo tempo em que adornam suas músicas com palmas e sapateados da catira, por exemplo. Misturam guitarra, baixo e bateria com sanfona, quijengue de umbigada, tambu de umbigada e muita percussão.

Tuia e o Dotô Jeka – Formada por músicos vindos de diferentes cidades do Vale do Paraíba, interior de São Paulo, a banda une a irreverência e a garra do rock ao lirismo e harmonia da música caipira, conseguindo um resultado surpreendente: agradar tanto roqueiros quanto apreciadores da música de raiz. A banda nasceu em 1994. Dois anos depois, lançou o CD Tia Marieta, que continha uma versão de Romaria, clássico da música caipira, de Renato Teixeira. A faixa se tornou carro-chefe do disco levando a banda a participar de alguns dos programas de maior audiência da televisão brasileira e o vídeo clipe a ser veiculado nas principais emissoras do País. O segundo CD, Fogo de Palha, aprofunda as pesquisas iniciadas em Tia Marieta. O disco inclui 11 faixas com músicas que afirmam a proposta de injetar rock na música caipira e versões de clássicos, como Vide Vida Marvada, de Rolando Boldrin. Agora, Tuia e o Dotô Jeka agora estão no trabalho de preparaão para o terceiro CD da banda, prometido para o começo de 2004.

Programação

04.11 – Matuto Moderno
Convidado: Grupo Os Favoritos da Catira

11.11 – Jerry Espíndola & Croa
Convidado: Paulo Simões

18.11 – Fulanos de Tal
Convidado: Noel Andrade

25.11 – Tuia e Dotô Jeka
Convidado: Beto Quadros

Convidados

Os Favoritos da Catira – Surgido na década de 80, em Guarulhos/SP. Apresenta a catira, com todos os elementos que marcam esta dança, como palmas, sapateado e coreografia sincronizada.

Paulo Simões

Cantor e compositor carioca-pantaneiro conhecido como autor de sucessos como Trem do Pantanal, Lobo da Estrada, Varandas, Sonhos Guaranis e comitiva Esperança e vários outras canões feitas em parceria com Almir Sater. Em 1992, divide o Prêmio Sharp de 92 com Guilherme Rondon, pela melhor canão regional (Paiaguás).

Noel Andrade

Nascido em Patrocínio Paulista, interior de São Paulo, Noel Andrade tem se destacado em importantes projetos artísticos. O violeiro utiliza a viola com diferentes afinaões, explorando, assim, os timbres e harmonias. Suas composiões procuram falar de um Brasil caboclo. O resultado é um show de viola arrojado e recheado de músicas com referências folclóricas.

Beto Quadros

Instrumentista, compositor e arranjador, Beto Quadros tem mais de 30 anos de carreira. Natural de Taubaté, há muito tempo dedica-se à pesquisa das influências musicais da região sudeste do país. É integrante da Cia Bola de Meia e do Trem da Viraão. O músico também participou de diversos festivais de música e de projetos regionais com Renato Teixeira e Lô Borges, na TV Cultura e na Rede Globo.

Viola Turbinada

Local:
Centro Cultural Banco do Brasil

Data:
4 a 25 de novembro

Horário:
21h00

Ingressos:
R$ 15,00 e R$ 7,50



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