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Um novo projeto do Centro Cultural Banco do
Brasil (Brasília) traz para a cidade a novíssima geração de artistas
que fazem a fusão da música de raiz com elementos contemporâneos.
“Se quiser falar do mundo, fale de tua aldeia”. O conselho veio em
finais do século XIX da parte de um romancista que é considerado por
muitos como o maior prosador da literatura, o russo Leon Tolstoi.
Pois é justamente esta idéia de voltar às raízes para conectar-se
com o mundo contemporâneo que norteia o trabalho de um grupo de
artistas que tem sido responsável por renovar a música caipira. São
músicos que decidiram amplificar, fundir as sonoridades de raiz com
ritmos e influências contemporâneas. O resultado é arrebatador.
Agora, Brasília poderá conhecer alguns dos mais conhecidos e
importantes integrantes deste movimento, através do projeto Viola
Turbinada, que durante o mês de novembro, trará para o palco do
Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, os primeiros nomes desta
nova música.
Viola Turbinada acontecerá dentro do projeto
Terças Musicais. A partir do dia 4 e até o dia 25 de novembro,
estarão se revezando no palco do Teatro do CCBB as bandas Matuto
Moderno, Tuia e o Dotô Jeka, Fulanos de Tal e Jerry Espíndola &
Croa, que contarão com convidados especiais a cada show. As
apresentações acontecem sempre a partir das nove horas da noite e os
ingressos estão a preços populares de R$ 15 e R$ 7,50. O evento
ocorre simultaneamente em Brasília e no Rio de Janeiro.
O
movimento de renovação da música caipira é natural do sudeste e do
centro-oeste do Brasil. Jovens músicos de São Paulo, Minas Gerais,
Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás e até do norte do Paraná
decidiram voltar à essência da alma do caipira para extrair o
material de trabalho de suas músicas.
A esta música de raiz,
aos ritmos regionais como moda de viola, catira e jongo, são
incorporados elementos do rock, batidas eletrônicas, instrumentos
amplificados e até efeitos de computador. O que se consegue é
surpreendente – eles já criaram versões para a viola até de músicas
de Jimi Hendrix. Os músicos costumam brincar, dizendo que cresceram
ouvindo rock, blues, reggae e MPB, mas hoje curtem mesmo é Tião
Carreiro e Pardinho e Tonico e Tinoco.
O movimento integra
uma tendência que se observa na música brasileira de redescobrir o
Brasil tradicional. Segundo o curador de Viola Turbinada, o cineasta
Reinaldo Volpato (que se diz um caipira e corda de viola), “essa
nova geraão de músicos honra seus antepassados, se orgulha de seu
povo e de suas tradiões”. Para Volpato, uma das metas do movimento
é, inclusive, acabar com a imagem que se construiu do homem do campo
brasileiro.
“As regiões sudeste e centro-oeste estão fazendo
questão de mostrar que seu personagem principal nunca foi o
canastrão desengonçado, enfermiço, preguiçoso e ignorante como as
elites um dia puderam fazer crer”, diz.
Matuto Moderno, Tuia
e o Dotô Jeka, Fulanos de Tal e Jerry Espíndola & Croa são
considerados os primeiros representantes desta nova corrente da
música brasileira, que tem no festival Caipira Groove, de Campinas,
interior de São Paulo, a principal vitrine.
Um pouco de
muita história
Não é de hoje que a música de viola
comprova popularidade. Tudo começou em 1929, quando o brasileiro
Cornélio Pires, sem conseguir espaço na gravadora Columbia, pegou um
empréstimo para lançar cinco títulos de autênticos violeiros e
cantadores do interior paulista. Contrariando os prognósticos das
gravadoras comerciais, os discos fizeram um imenso sucesso, gerando
a Série Vermelha, que teve 51 discos lançados – alguns bolachões
(eram discos em 78 rpm) chegaram a vender 20 mil cópias!
Com
tanta aceitação, a música caipira encontrou espaço generoso nas
gravadoras durante as décadas de 30, 40 e 50, época em que imperaram
duplas como Raul Torres e Florêncio, Tonico e Tinoco, Vieira e
Vieirinha, Tião Carreiro e Pardinho, entre vários outros. Mas a
partir da década de 60, a música caipira passa a acompanhar os
passos da Jovem Guarda, incorporando uma levada pop. Surgem duplas
como Milionário e Zé Rico, Léo Canhoto e Robertinho, Christian e
Ralf, que utilizam guitarras e contrabaixos elétricos, quase
anunciando o que viria pela frente.
Os anos 80 marcam o
estouro da música sertaneja, com duplas como Chitãozinho e Xororó,
Leandro e Leonardo, Zezé di Camargo e Luciano, que chegam a milhões
de pessoas no Brasil e no exterior. Tudo é grandioso quando se
refere a este fenômeno comercial e cultural, “embora pouco tenha
sobrado da alma e da viola caboclas”, ressalta o curador Reinaldo
Volpato.
Mas na década de 90, jovens violeiros brasileiros,
como Paulo Freire, Ivan Vilela, Roberto Correa e mesmo veteranos
como Pena Branca e Xavantinho voltam ao sertão para recuperar as
raízes e registrar festas e toadas populares. “Essa geração leva a
nossa viola caipira às salas de concerto mais famosas do Brasil e do
mundo, invadindo o erudito, participando de sessões de jazz and
blues, reinventando temas caipiras e da música popular tradicional”,
conta Volpato. O resultado não poderia ser mais contundente. Hoje, é
o rock que recorre à viola.
As bandas
Matuto Moderno
– A banda é apontada como uma das mais importantes do movimento,
reconhecida e respeitada pelos maiores violeiros do Brasil, como
Pena Branca, Pereira da Viola, Ivan Villela, Braz da Viola, Roberto
Corrêa entre outros. A Matuto Moderno bebe da fonte das músicas
regionais para criar suas composiões, somando instrumentos e ritmos
tradicionais como viola caipira, batidas de catira e percussão com
guitarras, bateria e outros efeitos eletrônicos. Os músicos da banda
dedicam boa parte de seu tempo a viajar pelo interior de São Paulo e
de Minas Gerais, pesquisando a cultura popular, registrando versos e
cantos, impregnando-se de sertão. Muitas vezes, conseguem recolher
verdadeiras pérolas que, depois, ganham uma roupagem contemporânea.
Já tem dois CDs lançados – Bojo Elétrico e o recente Festeiro,
produão independente de 2002, que conta com as participações de Pena
Branca, Pereira da Viola, Grupo de Catira Brasil de Rio Claro e
vários outros nomes do universo da música caipira.
Jerry
Espíndola & Croa – O sobrenome é bastante conhecido do cenário
musical brasileiro. A família Espíndola, da fronteira do Mato Grosso
do Sul com Paraguai e Bolívia, já cedeu ao Brasil os talentos das
irmãs Tetê e Alzira Espíndola. Agora, o caçula também promete
sacudir a música popular brasileira, com um som que funde ritmos
regionais mato-grossenses com a energia do rock. Jerry cresceu
ouvindo a polca, que levanta poeira nos bailões da fronteira.
Decidiu misturar este gênero com o rock, incluindo o rasgo
distorcido das guitarras e o repique dos tambores. A ele se uniram
quatro músicos integrantes da banda Croa (que quer dizer mata
fechada do cerrado). Juntos, Jerry Espíndola & Croa lançaram o
CD Polca-rock, que foi celebrado pela crítica como sendo uma espécie
de rock progressivo com jazz, reggae, enfim, uma riqueza melódica
que surpreende o público. O disco inclui 13 faixas, sendo nove de
autoria própria e quatro releituras, nas quais impera a polca-rock.
Mas também há espaço para a fusão interessantíssima da guarânia
paraguaia e com o reggae jamaicano.
Fulanos de Tal – Criada
em Rio Claro, interior de São Paulo, a banda faz um som que só pode
ser definido como “forte”. Forte na batida, na percussão. Já se
disse que os Fulanos de Tal não tocam violam: batem uma guitarra
pesadona. A banda trabalha sobre canções e ritmos originários da
cultura caipira/negra da região de Rio Claro e do Cururu, o repente
paulista. Os músicos injetam uma levada pop nos ritmos tradicionais,
ao mesmo tempo em que adornam suas músicas com palmas e sapateados
da catira, por exemplo. Misturam guitarra, baixo e bateria com
sanfona, quijengue de umbigada, tambu de umbigada e muita percussão.
Tuia e o Dotô Jeka – Formada por músicos vindos de
diferentes cidades do Vale do Paraíba, interior de São Paulo, a
banda une a irreverência e a garra do rock ao lirismo e harmonia da
música caipira, conseguindo um resultado surpreendente: agradar
tanto roqueiros quanto apreciadores da música de raiz. A banda
nasceu em 1994. Dois anos depois, lançou o CD Tia Marieta, que
continha uma versão de Romaria, clássico da música caipira, de
Renato Teixeira. A faixa se tornou carro-chefe do disco levando a
banda a participar de alguns dos programas de maior audiência da
televisão brasileira e o vídeo clipe a ser veiculado nas principais
emissoras do País. O segundo CD, Fogo de Palha, aprofunda as
pesquisas iniciadas em Tia Marieta. O disco inclui 11 faixas com
músicas que afirmam a proposta de injetar rock na música caipira e
versões de clássicos, como Vide Vida Marvada, de Rolando Boldrin.
Agora, Tuia e o Dotô Jeka agora estão no trabalho de preparaão para
o terceiro CD da banda, prometido para o começo de 2004.
Programação
04.11 – Matuto Moderno Convidado:
Grupo Os Favoritos da Catira
11.11 – Jerry Espíndola &
Croa Convidado: Paulo Simões
18.11 – Fulanos de Tal
Convidado: Noel Andrade
25.11 – Tuia e Dotô Jeka
Convidado: Beto Quadros
Convidados
Os Favoritos
da Catira – Surgido na década de 80, em Guarulhos/SP. Apresenta a
catira, com todos os elementos que marcam esta dança, como palmas,
sapateado e coreografia sincronizada.
Paulo Simões
Cantor e compositor carioca-pantaneiro conhecido como autor
de sucessos como Trem do Pantanal, Lobo da Estrada, Varandas, Sonhos
Guaranis e comitiva Esperança e vários outras canões feitas em
parceria com Almir Sater. Em 1992, divide o Prêmio Sharp de 92 com
Guilherme Rondon, pela melhor canão regional (Paiaguás).
Noel Andrade
Nascido em Patrocínio Paulista,
interior de São Paulo, Noel Andrade tem se destacado em importantes
projetos artísticos. O violeiro utiliza a viola com diferentes
afinaões, explorando, assim, os timbres e harmonias. Suas composiões
procuram falar de um Brasil caboclo. O resultado é um show de viola
arrojado e recheado de músicas com referências folclóricas.
Beto Quadros
Instrumentista, compositor e
arranjador, Beto Quadros tem mais de 30 anos de carreira. Natural de
Taubaté, há muito tempo dedica-se à pesquisa das influências
musicais da região sudeste do país. É integrante da Cia Bola de Meia
e do Trem da Viraão. O músico também participou de diversos
festivais de música e de projetos regionais com Renato Teixeira e Lô
Borges, na TV Cultura e na Rede Globo.
Viola Turbinada
Local: Centro Cultural Banco do Brasil
Data:
4 a 25 de novembro
Horário: 21h00
Ingressos:
R$ 15,00 e R$ 7,50
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