Texto de introdução do CD
Foram mais de quinze dias trabalhando filmes até alta madrugada em Botucatu, terreiro original de muitos violeiros, ancestrais da mais radical música caipira da região sudeste brasileira. Foi neste clima que pude acompanhar a Lua Nova, a Lua Crescente, a Lua Cheia. E foram mais de quinze as vezes em que me esbaldei nas canções que compõem este CD Festeiro, o segundo do Matuto Moderno.
Uma novidade se apresenta.
São diferentes essas músicas do disco. Nem raiz#com pop, nem pop com raiz. É uma produção autêntica na sua mistura. Como a cultura deste povo onipresente nos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil. Tudo é tudo. Música simbiótica: pagode de viola, cateretê, cururu, congo, toada, recortado, mas viola turbinada, batida de rock, blues, edição em computador, efeitos digitais. Os Matutos vivem na cidade grande e pesquisam o que sobra do sertão. Aplicam o que aprendem nas ruas congestionadas e o que ouvem dos pais, das mães, dos espíritos santos, o que sabem. Os Sertões em novas direções. Destinados aos sobreviventes globais que fazem questão de ser, estar, permanecer, ficar, tornar-se. Livres. Música para a juventude que exige informação substantiva, o espelho cristal de si mesma. Alma. Desfile de sabedorias que o sistema quer não, assassinadas. Música guerreira, de ataque, de abrir frente, conquistar horizontes, vida nova, delícias experimentais. Simples e muito. Simples e fodal. Simples e da hora. Como pio de coruja, agouro de urutago, vôo espantado de curiango. No céu, na água, na terra. No fogo das cidades. Fala Alto, Viola. Cavuca a terra. Desse mato sai coelho! Voando...
Reinaldo Volpato
caipira, cineasta, corda de viola